© ICRC / Iolanda Jaquemet
Conflito e más colheitas têm agravado o problema da mal nutrição no norte do país.
Quando a bebê de quatro meses Barakissa Ouattara chegou ao centro nutricional da Cruz Vermelha em Korhogo, pesava apenas um quilo. "Ela estava muito fraca e pensávamos que ia morrer naquele mesmo dia", afirma Salimata Coulibaly, diretora do centro. "Uma semana depois, parecia que tinha conseguido sobreviver. Para alguém sem experiência, ela ainda estava assustadoramente magra, mas parecia que estava mamando com energia, com sua mãozinha descansando sobre o seio da mãe."
Barakissa é vítima da pobreza e da falta de conhecimentos sobre cuidados com crianças pequenas. "Ela tinha um peso normal quando nasceu, mas desenvolveu diarréia", explicou a mãe, Haminata. "Dei um pouco de remédio para ela, mas não funcionou." A diretora suspeita que o problema tenha sido provocado por causa da baixa qualidade do leite da mãe. "No começo, a própria Haminata estava muito magra. Ela começou a engordar desde que chegou aqui."
Haminata nos contou sobre as colheitas de milho miúdo, milho verde e amendoim que não rendem mais uma produção extra para ser vendida, sobre seu trabalho exaustivo nos campos, a morte de seu sogro que costumava ajudar financeiramente a família, e sobre as outras três crianças que também precisa alimentar.
Cuidando das mães e crianças
É quinta-feira, dia de conferir o peso. Cerca de 50 crianças pequenas estão esperando na recepção para serem atendidas, sentadas no colo das mães, suspensas em tipóias penduradas nos ombros das mães ou brincando no chão, quando têm energia suficiente. Há pelo menos dez pares de gêmeos. Como observou Salimata Coulibaly: "Se a mãe não tem o suficiente para comer, certamente não produz leite suficiente para alimentar gêmeos."
Uma por uma, as mães entram na sala de consultas. Se a criança pesar menos de 70% do normal para a idade, necessita de assistência.
Felizmente para as crianças da região norte da Costa do Marfim, atingida tanto pela crise política e pelas colheitas ruins, Salimata é uma senhora persistente. Logo depois que o centro abriu em 1999, precisou fechá-lo por causa da falta de recursos. "Mas disse a mim mesma que se havia crianças desnutridas antes da crise, com certeza haveria mais ainda depois."
Um dia de agosto de 2004, alguém trouxe uma criança que pesava 4,6 quilos ao nascer, mas agora pesava apenas um terço. Foi como um choque elétrico. "Reabri o centro imediatamente. Não tinha dinheiro, mas pedi aos meus antigos nutricionistas que trabalhassem voluntariamente, o que eles fizeram", lembra a diretora.
"A mãe da criança tinha um problema com os mamilos e por isso estava dando água para seu bebê, ao invés de leite. Isso provocou uma diarréia na criança." Era um círculo vicioso que levaria à morte da criança."
Várias agências estrangeiras presentes no país concordaram em fazer doações, ajudando o centro a funcionar de novo. Em 2006, o CICV tornou-se o principal parceiro do centro, fornecendo leite e remédios, treinando as equipes, construindo latrinas, uma cerca e o prédio que abriga as mães dos bebês em condições mais graves.
Em 2007, 611 casos moderados de desnutrição foram tratados sem precisar de internação, e 181 crianças em estado grave, entre 0 e 5 anos, foram internadas para tratamento. Entre as colheitas, às vezes o centro trata de mais de 40 casos graves por mês.
Sacrificar a colheita – ou a criança?
© ICRC /Iolanda Jaquemet
Barakissa tem que ficar no centro por dois ou três meses para recuperar seu peso normal.
Com muita freqüência, essas famílias fazem apenas uma refeição por dia, e com suas mães trabalhando nos campos o dia todo, "as crianças menores acabam comendo o que sobra da refeição de seus irmãos mais velhos", afirma a diretora. As mães estão tão cansadas que param de amamentar muito rápido. E, se um bebê adoece, a mãe se depara com uma escolha terrível: "continuar com a colheita e perder os filhos, ou ficar em casa e cuidar dos filhos e perder as colheitas." Também estão em jogo fatores culturais: há mais meninas desnutridas que meninos.
Embora possa ser difícil mudar a situação econômica da região, conscientizar as mães sobre regras básicas de saúde pode mudar o comportamento. Salimata as ensina a amamentar tanto quanto possível, a estar ao lado da criança quando ela está comendo, a respeitar as regras básicas de higiene, e a identificar os sintomas de desnutrição. O centro tem uma horta, que dá aos funcionários a oportunidade de ensinar os princípios de dieta saudável para as mães que se alojam no local.
O CICV gostaria que este tipo de informação fosse oferecido de forma mais sistemática. "Nosso estudo mostrou que a maioria dos beneficiários vem dos distritos de Korhogo e de certos vilarejos na região", afirmou Oscar Avogadri, coordenador médico da organização. O CICV vai ajudar a treinar agentes de saúde que ainda trabalham nesses vilarejos e a organizar os esforços para difundir a conscientização e identificar os casos de desnutrição mais rapidamente.
Salimata nos mostra seu álbum de fotos com orgulho. À esquerda estão crianças esqueléticas, de aspecto assustador, olhos inchados e, em alguns casos, edemas. À direita, vemos meninos pequenos bochechudos e meninas de rosto redondo usando vestidos em cor de rosa e fitas no cabelo. O mais espetacular tipo de fotos "antes e depois" que se possa imaginar. Se tudo correr bem, a foto de Barakissa vai ser acrescentada às outras dentro de dois ou três meses.