Amandine chegou no departamento de obstetrícia do hospital regional Korhogo, no norte da Costa do Marfim, às 9 horas de 13 de maio. Ela não tinha certeza sobre sua própria idade, mas parecia ter cerca de 16 ou 17 anos. O que era certo é que estava para dar à luz. E o médico de plantão percebeu que sua pélvis era demasiado estreita.
Mas Amandine não tinha nenhum dinheiro, e ainda mais para uma cesariana – cerca de 250 dólares americanos. E nem Sékou Soumahoro, assistente social do hospital, tinha dinheiro suficiente para oferecer uma ajuda. Mesmo assim, tratava-se claramente de um caso de vida ou morte. "Enchi o tanque da minha bicicleta a motor, pagando do meu próprio bolso, e comecei a sair em busca de alguma coisa", disse.
Rede de segurança social
Os parentes de Amandine em Korhogo – a adolescente era do oeste da Costa do Marfim – estavam menos entusiastas em ajudar. O pai do bebê, um estudante de ensino médio, reconheceu sua responsabilidade, mas o pai dele negou-se a pagar pela operação. Depois de várias tentativas malsucedidas para conseguir o dinheiro, Sékou Soumahoro bateu na porta de Élise Bjerkrheim, chefe do escritório local do CICV.
"Estava claro que tínhamos de fazer tudo o que estava ao nosso alcance para salvar a vida daquela jovem", afirmou a delegada. Depois de alguns telefonemas e várias consultas, a solução veio do próprio Hospital Korhogo – um dos quatro que o CICV apóia desde 2003 no norte da Costa do Marfim.
"Em junho de 2007, começamos a doar remédios para o hospital mensalmente", explicou Amadou Fadiga, um médico do CICV que trabalha na região. "Alguns dos remédios são vendidos e a renda obtida (entre 300 e 500 mil francos suíços) é gasta com o tratamento dos pacientes em situação de indigência. Estabelecemos que precisamos priorizar os casos de parto e os pediátricos, e naturalmente os que apresentam risco de vida."
Amandine satisfazia a todos os critérios para receber ajuda financeira. No entanto, naquele dia em particular, havia poucos recursos no caixa. Graças ao dom da persuasão, Élise Bjerkrheim e o Dr. Fadiga finalmente chegaram a um acordo com o hospital: o estabelecimento concordava em reduzir o preço da operação e a farmácia iria antecipar o dinheiro obtido com a venda de remédios.
Às 22 horas daquela noite, Amandine deu à luz a uma menina saudável, por cesariana. Exausto, mas contente, Sékou Soumahoro finalmente podia ir para casa.
"Costumávamos ser o hospital de referência no norte da Costa do marfim", afirmou o diretor do hospital, Dr. Jules Kra Yao. "Mas desde que a crise começou, em 2002, tem havido um êxodo massivo dos médicos e nossos serviços pioraram muito. Por sorte, agora o CICV está ajudando a melhorar a nossa capacidade médica."
A título de exemplo, o DR. Yao mencionou a doação feita pelo CICV de dois aparelhos usados na esterilização de equipamento médico. Antes, o índice de infecções pós-operatórias estava perto de 100%. De acordo com um estudo conduzido no departamento de obstetrícia, que recebeu um dos aparelhos, agora as infecções foram praticamente eliminadas. O departamento cirúrgico recebeu o outro aparelho.
Outra prioridade foi o combate dos índices elevados de mortalidade entre as mães que acabaram de dar à luz e os bebês recém-nascidos (mais de duas vezes e meia aquelas do vizinho Mali, no caso do segundo índice). "Treinamos 58 enfermeiras e parteiras da região de Korhogo e cerca de 20 de Katiola; o interesse no programa tem sido enorme", afirmou o Dr. Amadou Fadiga. O CICV também doou uma grande quantidade de suprimentos médicos e equipamentos para os departamentos de obstetrícia e de cirurgia, redigiu documentos para o acompanhamento médico de protocolos de tratamentos e ofereceu apoio administrativo.
Sem água não há hospital
Os problemas de água e saneamento também precisaram ser abordados. "Duas semanas atrás, a bomba de água que ainda tínhamos e que já estava funcionando mal, quebrou totalmente", explicou o diretor. Sem água, nenhum hospital pode funcionar. Em um prazo de 48 horas, o delegado de água e saneamento do CICV em Korhogo, Michel Vouilloz, encomendou uma nova bomba, que estava sendo instalada sob supervisão.
Michel Vouilloz, um engenheiro, também estava concluindo vários estudos para averiguar se seria adequado instalar alguns aparelhos. "Nossa primeira prioridade é instalar um novo tanque", afirmou. "O atual é insalubre e é um risco para toda a vizinhança." O engenheiro estava fazendo mais planos para reformar o incinerador do hospital, que tinha sido fechado por causa da falta de combustível. "O incinerador poderia facilmente oferecer um serviço centralizado para todos os centros médicos na região", afirmou.
Resumindo a situação, Sékou Soumahoro explicou: "Os recursos disponíveis para ajudar os pacientes pobres dependem totalmente da venda de remédios pela farmácia. A cada dia recebo uma média de 30 pedidos de ajuda, alguns deles provêm de casos sérios, e todos os meses só posso financiar dez casos de importância relativamente menor, ou dois grandes." Embora isso não iria resolver todos os problemas, Sékou Soumahoro estava contente de saber que o CICV planejava aumentar consideravelmente o número de remédios doados à farmácia, uma vez que esta medida iria, certamente, injetar mais dinheiro no fundo de assistência social.
Na sala de recuperação das pacientes que passaram por cesariana, Amandine descansa. Depois de uma conversa com Sékou Soumhoro, ela resolveu batizar seu bebê, que dorme ao seu lado em paz, com o nome de Élise.
* Nome trocado