Filda Monango, seu marido e dois filhos voltaram para Paludar desde meados de março. Isto foi quase dez anos depois de a família ter sido obrigada a abandonar seu vilarejo no norte de Uganda, deixando para trás tudo o que tinham, só para salvar a vida.
"Nos últimos meses, vi tantas pessoas deixarem os campos para voltar para casa, e entendi que agora é seguro. Aqui posso trabalhar na minha própria terra e estou junto ao meu clã. Aqui finalmente me sinto livre", declara Filda. Enquanto fala, observa o marido e o irmão, que estão ocupados mexendo água com terra, material que depois será aplicado nas paredes da cabana redonda que em breve será a casa da família.
A população do norte de Uganda está novamente se locomovendo, dez ou, às vezes, vinte anos depois de fugir dos combates entre o Exército de Resistência do Lorde e o governo ugandense. No auge do conflito, pelo menos 1,7 milhão de pessoas perderam suas casas e foram morar em campos destinados aos deslocados internos.
Saída dos campos está aumentando
Depois que as partes beligerantes assinaram o acordo para cessar as hostilidades em meados de 2006, a segurança no terreno aumentou significativamente. O lento, mas constante movimento de saída dos populosos campos ganhou impulso. Ao longo das estradas barrentas, os grupos de camponeses estão agora ocupados limpando a terra que ficou sem nada durante muitos anos.
Não é um processo fácil. Como afirma Filda Monango: "Aos 39 anos, eu deveria ter muito gado e um lar bem estabelecido. Ao invés disso, tenho tantas poucas coisas como uma mulher recém casada." Christine Cipolla, chefe da sub-delegação em Gulu, resume os desafios encontrados pelos que voltaram: "Uma mata densa cobriu os campos, as fontes secaram, as estradas de acesso se tornaram caminhos estreitos." Além disso, os vilarejos não têm clínicas de saúde e as escolas secundárias que surgiram em volta dos grandes campos de deslocados.
©ICRC/P. Yazdi
Campos em torno do vilarejo de Apyeta, distrito de Kitgum. Esses camponeses estão abrindo suas terras, que estavam abandonadas há muito tempo, no âmbito de um programa do CICV que prevê remuneração em troca de trabalho.
Retornados dão o tom do apoio que necessitam
Em Paludar e em outras regiões, o CICV está se adaptando aos novos desdobramentos. "Depois de, durante anos, ter assistido aos deslocados nos campos, estamos numa fase de transição", afirma Michel Meyer, chefe da delegação do CICV em Kampala. "Acompanhamos as que tiveram a iniciativa de voltar, escutamos suas necessidades e vemos a melhor forma de prestar-lhes assistência."
Quatro, entre cada dez deslocados nos quatro distritos de Acholi, receberam instrumentos agrícolas distribuídos pelo CICV no começo do ano, totalizando 400 mil beneficiários. Quarenta mil entre estes retornados – selecionados entre os mais necessitados – também se beneficiarão de um programa que prevê dinheiro em troca de trabalho.
Janet Angelei, coordenadora de segurança econômica do CICV, explica: "Pagamos aos participantes em dinheiro, nas tarifas locais, para que eles abram os campos que estão há muito tempo abandonados. Além disso, eles venderão parte das colheitas. Assim eles atingirão auto-suficiência alimentar, enquanto o dinheiro extra os ajudará a suprir as despesas com a escola e as necessidades médicas."
Programa está baseado na solidariedade
Uma característica original do programa é a solidariedade do grupo. Cada grupo de 15 a 25 agricultores inclui algumas famílias vulneráveis – principalmente pessoas idosas, mas também viúvas, lares chefiados por crianças ou os cronicamente enfermos, como as pessoas com Aids. Os que têm condições físicas fazem o trabalho pesado, enquanto os mais fracos ficam encarregados das tarefas mais leves, como a coleta de madeira e a semeadura de sementes.
Mais adiante, afirma Janet Angelei, o programa dinheiro em troca de trabalho vai se concentrar na infra-estrutura dos povoados. "As comunidades vão identificar suas necessidades, como a melhoria das estradas, a proteção de fontes ou a construção de locais de armazenamento para as colheitas, e vamos apoiá-las."
©ICRC/P. Yazdi
Vila Apyeta, Distrito de Kitgum. Joseph Alana com sua mulher sentando debaixo de uma mangueira que ele mesmo plantou há varios anos.
Joseph Alana é um dos beneficiários vulneráveis. Aos 67 anos, ele finalmente voltou para o povoado de Apyeta, que não fica longe de Paludar, onde 101 famílias se inscreveram neste programa do CICV. Ele ainda está de luto pela morte da mulher e três filhos perdidos na guerra. Mas, pelo menos, diz, mostrando a linda mangueira acima de sua cabeça: "Estou de volta para a árvore que plantei com minhas próprias mãos há muito tempo atrás. Aqui não há tantas pessoas como no campo. Estou trabalhando nos meus campos em vez de ser um trabalhador ocasional. Estou muito feliz porque o CICV não está deixando pessoas como eu fora do projeto."
No entanto, para a geração mais nova, com poucos conhecimentos sobre agricultura e que encontrou novas oportunidades nos campos, que de tão grandes pareciam cidades, a volta é mais ambígua. Em Apyeta, Francis Obedi, de 22 anos, está satisfeito de poder participar do programa, porque, afirma ele, "meu pai tem problemas mentais, e sou responsável por minha mãe e meus irmãos menores. O que quero mesmo é fazer meus exames na escola e depois procurar um trabalho na cidade. Aqui só temos a escola primária e isto é tudo."
Agora ele está ansioso para economizar dinheiro e, "depois de duas ou três colheitas, poder voltar a estudar". Perto dele, sua mãe aprova suas palavras com a cabeça. Ela entende que, para Francis, "liberdade" tenha um sentido diferente que para alguém que foi agricultor a vida toda.