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13-05-2008  Reportagem  
Afeganistão: a esperança está nascendo das cinzas
Ferimentos provocados por minas terrestres nos últimos 25 anos deixaram pelo menos cerca de 100 mil afegãos mutilados. Espalhadas por todo o país, para muitas famílias as minas terrestres são portadoras de uma tragédia repentina e inesperada. Esta é a história de Saddiq Ali, cuja vida desolada o CICV está ajudando a reconstruir.

© ICRC
Saddiq Ali na sua casa em Bamyan.

Saddiq Ali nasceu quase 15 anos atrás no Vale Follady, na província de Bamyan. A região é atravessada pelo rio Follady, que desce das montanhas Baba. A água do rio irriga as terras agrícolas do vale e na primavera e verão os campos verdejantes e as árvores que os rodeiam aumentam a riqueza da paisagem natural.

Vários pequenos vilarejos se espalham sobre o vale e a maioria dos moradores cultivam plantações e têm rebanhos para alimentar suas famílias. Durante o inverno, quando as temperaturas podem atingir -35º C, as pessoas passam a maior parte do tempo em casa, esperando a volta da primavera.

Em um dia de primavera em 2005, Saddiq estava indo a pé de sua casa para o povoado do Vale do Dragão – uma caminhada de 90 minutos – para visitar sua tia. Quando estava chegando no povoado, viu alguns de seus amigos brincando do lado de fora. Ao correr em direção a eles, não sabia que estava adentrando uma área repleta de minas terrestres, que haviam sido colocadas nos anos 1980. Sem nenhum alerta, uma explosão ensurdecedora tirou sua respiração e, depois de alguns momentos de uma dor pungente, Saddiq perdeu a consciência.

Os moradores do vilarejo correram para ajudá-lo. Ele foi transportado para o hospital central Bamyan. A explosão levou embora as pernas de Saddiq. Inicialmente não pôde entender o que isto significava para ele, mas uma vez que, gradualmente, compreendeu, foi tomado de tristeza e medo do futuro. Como ele iria agora para a escola? Como sairia de casa? Como, um dia, iria trabalhar para ajudar sua família? Seria esquecido por todos?

Passados alguns meses, durante os quais Saddiq e sua família ouviram falar da ajuda que o CICV presta para pessoas que tiveram membros amputados, Saddiq encontrou Habib Hussaini, chefe do escritório do CICV em Bamyan. Foi levado num veículo do CICV para o Centro Ortopédico Ali Abad, em Cabul, um dos seis centros de reabilitação física do CICV no Afeganistão destinados a ajudar as vítimas de minas terrestres. Recebeu duas pernas artificiais e nos três meses seguintes passou por tratamento e treinamento para poder caminhar com as novas pernas.

© ICRC
Graças às duas pernas artificiais, Saddiq Ali pode caminhar novamente.
Ao voltar para o Vale Follady, sentiu-se como outro garoto. Estava muito contente por poder andar de novo até a escola. Assim como os outros pacientes dos centros ortopédicos do CICV no Afeganistão, Saddiq passa por check-up regulares, retornando com freqüência à clínica Ali Abad para ajustar as pernas artificiais. A cada vez, volta para casa com um sorriso e a força para continuar a lutar por sua educação e futuro.


"Agora posso ir novamente a pé para a escola. O prédio fica a cerca de 30 minutos de casa e percorro o trajeto mais devagar que antes, mas não me importo", afirma, acrescentando: "Dá até mais força para continuar meus estudos. Quero me tornar médico para oferecer meus serviços para outras pessoas como eu."

Ele também fala sobre suas novas idéias: "Penso que pessoas como eu deveriam ter burros para nos transportar, de forma que pudéssemos chegar à escola sem atrasos."

Saddiq está triste por não poder mais jogar futebol. "É muito chato para mim não poder mais jogar, mas por outro lado, depois dos exercícios de reabilitação física, aprendi a fazer algunas coisas e estou orgulhoso de ainda poder ajudar minha familia."

Em relação a como seu problema é visto pelas pessoas em torno dele, Saddiq reflete: "Às vezes as pessoas me olham de um jeito estranho, e há alguns momentos desagradáveis. Na escola, alguns meninos me insultam e usam palavras desagradáveis para se referir ao meu problema. Mas vou trabalhar para mudar isso."


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13-05-2008